(Texto da Série – Reflexões da Quarentena)

Penso que a crise nos coloca em uma situação limite e faz aflorar o que há de pior e também o que há de melhor em nós, seres humanos.
Olha só, quantos são os casos publicados e que nos deixam entristecidos, por serem exemplo de oportunismos, violência, falta de tolerância ou falta de senso de coletivo que se intensificaram diante da crise. Eles, infelizmente, existiram de verdade nas notícias:
“Teve quadrilha presa por vender álcool em gel falsificado no centro de SP; criminosos que se organizaram para aproveitar o momento de enfrentamento ao coronavírus para aplicar golpes através de ligações telefônicas, mensagens de celular e e-mail”;
“Pessoas em uma busca sem precedente nas farmácias pelo remédio apontado como tratamento do coronavírus, afetando os estoques das farmácias e prejudicando os pacientes de lúpus que realmente dependem do medicamento”;
“O aterrorizante aumento no número de casos de violência doméstica durante a pandemia, atingindo principalmente mulheres, idosos, crianças e pessoas com deficiência” e
“Teve até um aumento no número de divórcios registrado na China durante o período de isolamento”.
A crise ainda gera impactos negativos para a sociedade e para as relações, e fragiliza a confiança em órgãos governamentais:
“A pandemia derruba a economia global, afeta intensamente as relações internacionais entre os países e aumenta os índices de desemprego e desigualdade social no mundo”;
“Algumas lideranças politicas apontaram grande dificuldade na gestão da crise gerando ainda mais confusão e desgaste da população”;
“O órgão máximo da saúde no mundo (OMS) recebe duras críticas pela falta de posicionamento na gestão da pandemia”;
“E além de todos os efeitos na economia global, ainda se intensifica no Brasil, a crise politica”.
Essas divergências de interesses políticos e de opinião afloram o clima tenso entre a população.
Enfrentamos ainda os riscos de impacto na saúde mental:
“Aumentos nos sintomas e casos de depressão e suicídio são esperados; Estudos na China apontaram aumento nos casos de depressão em profissionais da área de saúde;
“O consumo de álcool e drogas durante o isolamento social tem se mostrado preocupante e pode acarretar em novos dependentes no futuro”;
“Estudos mostram que a solidão provocada pela falta de vida social pode provocar uma elevação no organismo dos índices de cortisol (hormônio do stress) e esse aumento representa um risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, obesidade e até depressão”;
“O fluxo e volume de informações a que temos acesso nas redes sociais, e que podem não ser verdadeiras, podem provocar ansiedade. Esse fenômeno recebeu até uma nova denominação pela OMS – a Infodemia”.
Enfim, muitos são os efeitos negativos causados pela crise, mas ela também pode fazer aflorar o nosso melhor…a nossa capacidade de criação e nossa capacidade de cooperação, veja aqui alguns exemplos:
- Em pouco tempo já pudemos presenciar uma redução significativa nos índices de poluição e constatamos a alta capacidade de regeneração da natureza, que até nos presenteou com um céu colorido há tempos não observado;
- Estamos observando exemplos de cidadãos que preparam alimento para moradores de rua, vizinhos que se disponibilizam para fazer compras para os idosos, vizinhos que trocam gentilizas, como alimentos ou pedaços de bol, simplesmente para alegrar a vida de outros;
- Pessoas que se voluntariaram para criar plataformas de vendas antecipadas para profissionais autônomos com o intuito de ajudar a manter a renda desses profissionais. Além das pessoas que confiam e investem na compra desses produtos ou serviços antecipados;
- Vemos negócios que diversificaram e inovaram seus serviços para atender on-line ou com delivery;
- Notamos uma aceleração de inovações e aumento do uso das tecnológicas de forma favorável para as pessoas e negócios;
- Projetos há muito tempo na fila das burocracias, esperando por aprovação, foram aprovados tanto nas empresas, como no governo, como por exemplo: homeoffice e teleatendimento para os médicos;
- Uma nova consciência da possibilidade de uso da tecnologia para aproximar as pessoas se instalou (ex. homeoffice, pessoas que moram distante e se reencontraram com amigos queridos que não viam há tempos, reuniões de família, festa de aniversario on-line, lives, etc…);
- Houve não só um aumento dos investimentos em pesquisa e saúde, mas também uma maior valorização desses investimentos;
- Muitas pessoas melhoraram a qualidade da alimentação e até aprenderam a cozinhar, resgatando os sabores e as receitas de família;
- A saudade dos tempos conhecidos, nos fez resgatar memórias e fotografias de infância; e compartilhar com nossos filhos, nessa oportunidade de aumento no convívio familiar;
- E tantos outros que você mesmo deve ter experimentado….
Muitos desses exemplos já poderiam ser realidade antes, mas certamente a crise os acelerou, evidenciou ou criou!
Fica evidente que o impacto das minhas atitudes, da minha saúde e do meu autocuidado afetam os outros. Quando eu me cuido, eu também estou cuidando do outro. Uma experiência que nos dá a nítida noção de sermos conectados e de sermos um só. Cultivar a paz interior é cultivar a paz do mundo.
A atitude de cada um de nós afeta o meio em que vivemos, tanto para o bem como para o mal.
Finalizo com essa frase de Rudolf Steiner que, para mim, é uma grande síntese do que estamos vivendo e experimentando hoje de forma intensiva. A real noção do que é a vida em sociedade, em comunidade:
“Uma vida social saudável se consegue apenas quando no espelho de cada alma, a comunidade inteira encontra seu reflexo. E quando a virtude de cada um, vive em toda a comunidade”
Rudolf Steiner (1861-1925)
Sejamos o espelho de uma comunidade de virtudes….
Carla Merlina Gennari
Baku, 19 de abril de 2020.

