SILÊNCIO

(Texto da série – Reflexões da Quarentena)

Me marcou muito uma conversa que tive com uma amiga há algumas semanas atrás. Ela me contou que seu filho de 10 anos teve crises de ansiedade logo no início da quarentena e uma das recomendações do psicólogo foi para que eles estabelecessem algum contato com a natureza.

Fiquei pensado: Como seria manter contato com a natureza no meio da quarentena? Quais as possibilidades de contato com a natureza nessas circunstâncias de confinamento? 

Contemplar a lua e as estrelas deitados próximos à janela, foi a escolha deles nesse momento, mas que outras coisas poderiam ser feitas? Cuidar de uma planta, ter um tempo dedicado à um animal de estimação, fazer desenhos da natureza, brincar com a água, contemplar o sol ou as árvores, mexer com a terra, observar os pássaros…. 

Este tema ficou rondando meus pensamentos. Creio que essa recomendação tem como propósito resgatar o simples, o belo e o natural da vida! Como numa tentativa de pegar emprestado o equilíbrio da natureza como uma fonte de equilíbrio interno, reconexão e centramento. 

Me parece também um convite à contemplação. Contemplar tem várias definições que vão desde contemplar objetos até algo mais divino.

Pode significar simplesmente: o ato de concentrar longamente a atenção em algo ou olhar um objeto com admiração, mesmo assim, já significa mais do que um simples olhar;

Significa também, uma profunda ampliação da mente em um estado de abstração, meditação, reflexão;

Outro sentido para a palavra, considera a contemplação de pessoas, como num ato de oferecer alguma coisa a alguém como prova de reconhecimento;

Existe ainda um significado de origem na Teologia que é a concentração do espirito nas coisas divinas. A amorosa, simples e permanente atenção do espírito às coisas divinas. Esta descrição é classificada como uma contemplação sobrenatural (é uma luz superior que recebemos e que ilumina as verdades que contemplamos).

Independente de qual a definição, eu já experimentei o exercício de contemplar algumas vezes, até mesmo sem saber. 

Desde criança quando frequentava a praia de Santos, eu amava andar com meu pai pelas pedras do pier chegando o mais perto possível do mar, e ali sentávamos por horas, sem perceber o tempo passar, olhando o ir e vir das ondas. Naquela época eu nem sabia que isso era um tipo de contemplação e meditação, mas eu sabia que me sentia muito bem. Saia de lá sempre feliz e preenchida. 

Sempre amei dedicar um tempo junto com meu filho para contemplar a rua quando ainda morávamos no Rio de Janeiro. Debruçados, lado a lado, olhando através dos vidros da sacada, quase como colocando a rua em um quadro com movimento, observávamos atentamente a vida cotidiana na sua simplicidade e em cada passo. Ou contemplávamos as nuvens, buscando imagens e símbolos, se formando e se transformando no céu.

Um dos melhores exercícios de contemplação que eu já fiz na vida, foi a contemplação das palavras, em um grupo de estudo de que fazia parte também no meu amado Rio de Janeiro, chamado Palavra Preciosa.

Nós ouvíamos a leitura de textos feitas pela facilitadora do grupo e, a partir de uma escuta atenta, aprofundávamos o significado das palavras por meio de diferentes exercícios e pontos de vista. Esse aprofundamento tinha um efeito meditativo, provocava uma sensação de intimidade com cada palavra estudada e a clareza de que havia par cada uma delas, significados múltiplos e complementares. 

Uma rica oportunidade de perceber na prática que a compreensão apurada das coisas requer tempo, aprofundamento, atenção plena e presença. Menos julgamento e imediatismo.

Todas essas memórias vieram à minha mente quando conversei com essa minha amiga e me lembrei da sensação boa de preenchimento que senti em todas essas ocasiões. Eu não resisti e inclui na quarentena um convite ao meu filho e grande companheiro, para mais um desses momentos. 

Contemplamos o céu, os pássaros e as nuvens, da janela do quarto, juntinhos e abraçadinhos. Parece que o tempo parou. Um momento de estarmos inteiros ali. E todas as vezes que o cansaço ou a irritação aparecem, fazemos isso de novo.

Para mim o exercício de contemplação é também um exercício de silêncio. Eu tenho sentido necessidade de silêncio. A cidade está em silêncio. Eu acredito que estamos enfrentando nesse momento o desafio de silenciar, desacelerar, observar e contemplar tudo o que está acontecendo. O desafio e a chance de silenciar.

É no silêncio que ouvimos o canto dos pássaros, é no silêncio que aquietamos a mente inquieta, no silêncio de uma conversa que as falas ressoam, no silêncio que recuperamos o fôlego, no silêncio que conquistamos uma pausa restauradora, no silêncio escuto meus pensamentos com mais atenção, no silêncio consigo incluir novos pensamentos. O silêncio é preenchido de respostas.

Me lembro sempre do amanhecer em São Roque, cidade de meu marido, onde o silêncio da noite acorda com o canto dos pássaros ao nascer do dia. Onde experimento as minhas melhores noites de sono. Silêncio e natureza estão intimamente ligados. 

E nessa tentativa de unir a quarentena ao silêncio e à natureza, termino aqui com um poema com o qual me deparei no ano passado na exposição chamada La Lune que tive a oportunidade de visitar em Paris.

“Astro que se revelou deserto e estéril, a Lua conservou intacto seu poder de surpreender.
Na contemplação silenciosa, além do conhecimento, ela oferece em um momento fora do tempo, uma experiência íntima na qual o discurso dá lugar à poesia.
 
Diane-Selene, lua de belo metal,
Que reflete em nossa direção, pela sua face deserta,
No inimigo imortal da calma sideral,
O arrependimento de um sol, cuja perda lamentamos,
 
Ó Lua, eu te culpo por sua claridade
Insultando o vazio das pobres almas,
E meu coração, sempre farto e inquieto
Aspira pela paz de noturna chama.”
 

Jean de La Ville de Mirmont (1886-1914)

Carla Merlina Gennari

Baku, 15 de abril de 2020.

4 respostas para “SILÊNCIO”

  1. Muito legal ! Minha grande dificuldade está na necessidade de poder me distanciar fisicamente, o observar silenciosamente está ligado a poder “ver” o mundo que se esconde e a janela não está bastando … vamos desaprendendo. 🙂

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