TEMPO

(Texto da Série – Reflexões da Quarentena)

“Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei…
 
….Não se iludam. Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo….“
(Gilberto Gil – Música: Tempo Rei)

Esses dias tenho estado com essa música de Gilberto Gil na cabeça e tenho pensado muito sobre o tempo….

O tempo não mudou, mas as referências de tempo mudaram. Antes faltava tempo e agora sobra tempo! Porém, para algumas coisas, o contrário também é verdadeiro!

Tem dias que passam rápido e outros que demoram para passar! 

Tenho notado que desde o inicio da quarentena, a cada semana que passa, tenho tido vontades diferentes do que colocar no meu TEMPO:

No início estava muito conectada com informações e dados sobre covid-19, estava em busca constante de novas atividades para aproveitar o tempo com meu filho e imersa em atividades físicas. Depois surgiu um forte desejo de arregaçar as mangas e fazer algo concreto para melhorar a situação – oferecendo meu trabalho de forma voluntária e também divulgando outros projetos. Enfim, começou um tempo de grande dedicação no acompanhamento das atividades escolares de meu filho. Mais adiante, fui tomada pela necessidade de um tempo mais produtivo e mergulhei ainda mais no trabalho por madrugadas afora. Houve tempo de socializar com amigos e família. Depois, ao contrário, uma necessidade de silenciar, acalmar e ficar muito quieta! Uma certa estafa e excesso de informações, me fez afastar de notícias, artigos, lives. Iniciei um tempo dedicado à cozinha e a deliciosos cafés da tarde recheados de biscoitos e bolos com gosto de infância! 

Segundo o psicanalista Christian Dunker, quando estamos em tempos de incerteza, insegurança e dúvida sobre o futuro, nós buscamos referências do passado que nos trazem conforto!  Acho que cheguei nessa fase, e deve ser por isso que notei muitas pessoas postando fotos antigas na internet, nos últimos dias.

Eu creio que começamos a fazer viagens no TEMPO passado em busca das receitas de família, fotografias e etc…para encontrar algum lugar de aconchego e referência em situação já vividas e conhecidas! 

Mas voltando dessa viagem no tempo, retorno ao presente momento e percebo que os dias passam e tudo vai se transformando.

As notícias que valem num dia, não servem para outro. Os remédios que são esperança em um dia, viram dúvidas no outro. A orientação é para ficar em casa, mas alguns dizem que não é necessário. Não é preciso usar máscara, mas é melhor que todos usem. A economia será afetada, as pessoas estão morrendo….

Estamos em um tempo em que tudo é efêmero?

Tudo passa e tudo passará….cada vez mais rápido e mais instantâneo?

Mas isso não é de hoje, como já canta Gilberto Gil há tempos: Tudo agora mesmo pode estar por um segundo….“

É cedo para concluir qualquer coisa. Não tenho experiência com isolamento, nunca tinha vivido isso antes. E essa experiência vai mudando a cada instante. Muda externamente e nos muda internamente.

Até agora, o que sinto é que no início eu estava mais voltada para fora e agora mais voltada para dentro. Percebo que o TEMPO mais precioso é aquele dedicado a elaborar o que tem dentro, para “aprender sobre o que eu ainda não sei e transformar as velhas formas do viver.”

Nesse momento eu concluo que o TEMPO é o que eu fizer dele. E o que será que vem depois?

Carla Merlina Gennari

Baku, 11 de abril de /04/2020.

2 respostas para “TEMPO”

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