LADO B LADO A: De que lado está a sua história?

Esse texto eu escrevo em homenagem ao meu marido. Assim que chegamos em Paris ele me disse: Você que gosta de escrever, poderia registrar a nossa experiência aqui na França, não é mesmo? 

Pois é, esse chamado sempre esteve presente em meus pensamentos, mas só agora, depois de quase dois anos, é que realmente consegui me dedicar a isso.

Como é bom dar um tempo para nossas experiências, ideias e intenções amadurecerem e ressoarem dentro de nós, assim, o aprendizado fica mais consciente. Confesso que me sinto feliz e realizada por ter desenvolvido ao longo desses anos, essa calma e essa paciência. 

Agora, eu vou contar como foram os nossos primeiros quinze dias aqui. Mas, vou fazer isso de uma forma diferente.  Eu vou contar duas versões da mesma história:

LADO A

Vindo do Rio 40 graus, chegamos em uma semana de muita neve.  Estava tudo branquinho. Meu filho, com 3 anos na época, disse: “Mamãe, eu não sabia que a França era congelada“.

Dois dias depois de nossa chegada, meu marido iniciou suas atividades no trabalho. Eu e meu filho tínhamos uma cidade congelada para explorar.

As roupas e acessórios apropriados para esse inverno já estavam quase esgotadas nas lojas, eu nunca poderia imaginar isso. 

Uma semana depois, na noite mais fria dos últimos 10 anos em Paris, meu marido chega em casa do trabalho com fortes dores nas costas…adivinhem…uma crise renal das grandes.

Chamei por socorro na recepção do hotel e logo chega no quarto uma equipe de primeiros socorros falando francês, é claro! Como ainda não falávamos nada do idioma, precisamos da tradução do recepcionista do hotel para nos comunicarmos.

Eles chamaram uma ambulância para levá-lo ao hospital, já que a dor só aumentava. A equipe de resgate, que também falava apenas francês, nos informou que o serviço de ambulância precisaria ser pago naquele momento. Serviço esse que saiu bem “salgado”, já que não havia troco. Nosso custo de recém-chegados! 

Eu e meu filho ficamos no hotel aguardando noticias, pois decidimos que não era apropriado expor uma criança ao frio e ao ambiente hospitalar naquele momento. Foi uma espera angustiante. Eu ainda não tinha acesso ao celular, usava apenas a rede do hotel e aguardava noticias por e-mail. 

A ultima crise renal dele tinha terminado em uma cirurgia, 3 anos antes. Eu estava bem preocupada.

Enfim, por volta das 3 horas da madrugada. Ele foi liberado pelo hospital medicado para ir para casa e aguardar a saída da pedra. Passou na farmácia para comprar os remédios. A farmácia 24 horas em Paris, tem um guichê do lado de fora, ao relento, pelo qual se solicita e se recebe os medicamentos. Vamos lembrar que nesse dia se registrou a madrugada mais fria dos últimos 10 anos em Paris. Meu marido, na urgência de sair de casa para o hospital, vestia apenas um casaco leve.

Enfim, ele chegou de volta ao hotel, ainda com um pouco de desconforto e muita aflição de que aquela dor terrível pudesse voltar, já que a pequena e desconfortável “pedrinha”….ainda estava por lá, fazendo companhia.

E lá ela ficou assombrando por mais quinze dias e muitos medicamentos, quando resolveu dizer adeus…..deixando o registro de uma experiência inesquecivelmente dolorida!

Vamos agora para o LADO B da mesma história….

Que incrível poder observar uma paisagem tão contrastante, saindo do pleno verão para o auge do inverno. Um choque arrepiante e ao mesmo tempo belo de se ver. A beleza da natureza que muda a paisagem a cada 4 ciclos anuais e que nos permite contemplar a sua transformação e a nossa própria.

Brincamos de escorregar na neve e fazer guerra de bolinhas. Que grande oportunidade de diversão e aprendizado para nosso filho.

Não tínhamos as roupas mais apropriadas, mas fomos colocando tudo o que tínhamos para espantar o frio….muitas camadas! Um tanto divertido para quem está vivendo isso pela primeira vez.

Meu marido teve uma crise renal logo nos primeiros 15 dias, mas que bom que mesmo sem falar o idioma, apareceram as pessoas certas que puderam nos ajudar quando precisamos.

Ele teve um gasto muito maior com o serviço de ambulância, mas enfim, quem não leva um “trote de calouro” quando muda de pais? Ainda mais em situação vulnerável. Aprendemos com isso!!

Finalmente depois de 15 dias, apesar das dores e de ter passado muito frio naquela madrugada gelada em que teve que ir ao hospital, a pedra o abandonou. Graças a Deus sem a necessidade de fazer uma cirurgia! Ufa que alivio!

Lembramos sempre dessa experiência que vivemos juntos. Não foi a melhor e mais confortável estreia em um novo país, mas sempre agradecemos por ter tido todo os recursos para lidar com essa situação e cuidar de um dos nossos bens maiores, a saúde!

E aí, qual você mais gostou?

Para explicar o título das duas versões da mesma história, eu vou usar uma metáfora. Você que é muito jovem não deve nem conhecer. Lado A e Lado B na indústria da música, representam os lados dos antigos discos de vinil.

Você sabia que no início, o Lado B desses discos era composto por canções diferenciadas e alternativas? Era considerado o lado da diversidade, da espontaneidade, o lado oposto. Algumas bandas, artistas e compositores chegaram a declarar que o Lado B de seus discos era aquele mais autêntico, onde mostravam a sua verdadeira essência e o Lado A era aquele destinado as canções mais comerciais. 

Por muito tempo os artistas e gravadoras usavam os dois lados para colocarem as músicas de sucesso,  mas no começo da década de 1990 as vendas aumentaram, e o Lado B se tornou o lado do disco onde eram colocadas versões inferiores que não serviriam para o rádio, que tinham menos audiência, que eram esquecidas. Ao final, eram obras que também faziam parte do artista, mas as pessoas não queriam ouvir.

Você já parou para pensar qual é o Lado B das suas histórias? Aquele lado que fica esquecido, que não dá audiência? Aquele lado que nem você mesmo quer conhecer? Aquele lado que pode não ser tão interessante, mas que faz parte da sua obra também? 

Se você fosse o artista produzindo esse disco, o que colocaria no Lado B? 

Eu gosto de pensar no Lado B como o Lado BOM ! Aquele que conta da nossa verdadeira essência, que muitas vezes deixamos esquecido, aquele que não necessariamente dá audiência, mas que é onde mora o lado apreciativo da vida e das coisas. Das coisas que deram certo e das que não deram tão certo assim. O lado do aprendizado, lado da gratidão pelas experiências vividas, mesmo que não sejam as melhores, mas que sempre nos permitem tirar algum proveito. 

Será que muitas vezes o lado BOM fica esquecido porque não dá tanta audiência? Será que nos acostumamos a reclamar mais do que agradecer? 

Ainda que a melodia não seja aquela que imaginamos e que tocaria nas rádios (ou playlists), pode ser bom conhecer, ouvir e refletir.

Como seria a experiência de fazer uma leitura diferenciada de você mesmo e de suas experiências na vida? 

Eu desejo um BOM lado para as suas histórias….

Carla Merlina Gennari

França, 18 de novembro de 2019.

2 respostas para “LADO B LADO A: De que lado está a sua história?”

  1. O lado B Carla sou uma pessoa muito otimista já passei por um.cancer devastador mas com minha opção do lado B aqui estou forte cheia de fé e esperança.

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