VIDA: Transformando a dor em sentido…

Nesse texto vou arriscar trazer um tema difícil, sobre o qual, na maioria das vezes, não gostamos de falar, abordar, pensar e nem sequer refletir. Ele é um tema difícil, mas talvez se trate da única certeza que todos nós temos nessa vida – a morte.

Porém, ao tratar o tema da morte, o meu objetivo é refletir sobre a vida….

Para tocar nesse tema, escolhi trazer alguns trechos do livro da Dra. Ana Claudia Quintana Arantes – “A morte é um dia que vale a pena viver”, justamente porque ela toca no assunto de um jeito leve e com muita sabedoria. Ela diz que falar da morte é falar da vida. Ela nos dá a oportunidade de refletir por meio de sua experiência de muitos anos acompanhando pacientes terminais sobre o quanto as escolhas que fazemos na vida e a cada dia, impactam o momento de nossa partida. São dicas valiosas que me tocaram muito e, por isso, resolvi compartilhar com vocês.

Ela se formou em Medicina e se especializou em Cuidados Paliativos e Suporte ao Luto por acreditar que sempre há algo a ser feito para melhorar a qualidade de nossa existência, mesmo que seja nos últimos dias de nossas vidas. 

Esse cuidado com as pessoas e essa compaixão, me inspiram e me fazem admirá-la. Fico realmente encantada com seu trabalho que exige muita coragem, entrega e equilíbrio. 

Eu perdi a conta de quantas vezes ela comenta no livro sobre a importância de encontrarmos significado e sentido em nossas vidas. Eu, que já acreditava nisso, fiquei ainda mais convencida.

Veja alguns trechos que selecionei e que expressão essa reflexão:

Algumas pessoas apenas podem mudar, outras precisam; o que nos une é o querer. Desejar ver a vida de outra forma, seguir outro caminho, pois a vida é breve e precisa de valor, sentido e significado. E a morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida.” 

“Acredito que a vida vivida com dignidade, sentido e valor, em todas as suas dimensões, pode aceitar a morte como parte do tempo vivido assim, pleno de sentido.” 

“As pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido.” 

Você já tinha pensado sobre isso?

Ela, com tanta experiência e convívio com pacientes terminais, afirma que aquilo mais gera arrependimento e sofrimento no momento da morte é não ter encontrado o sentido na vida. 

Fico bem atenta a essa poderosa mensagem que ela nos dá a chance de conhecer e compreendo que, a cada dia temos a oportunidade de encontrar o sentido da vida em vida. 

Para encontrar sentido e equilíbrio na vida, eu creio que é necessário ter consciência do quanto estão saudáveis as dimensões física, emocional e espiritual em nossa vida e cuidar para que estejam sempre em harmonia. Esse é um exercício diário que exige foco, paciência e priorização. Exige autoconhecimento e contemplação de nós mesmos. Exige autocuidado. 

O que acontece muitas vezes é que um desequilíbrio em uma dessas dimensões, pode afetar todas as outras. É muito comum ouvirmos histórias de pessoas que só começaram a pensar no sentido da vida depois da chegada de uma doença que afeta o nosso físico.

Quando a dor física aparece, ela vem para nos dar um recado. Como já dizia o famoso médico inglês Dr. Edward Bach em Heal Thyself:

“A doença, embora aparentemente cruel, nos ajuda a aprender lições que precisamos saber. A doença não é punição. Ela tem finalidade de nos dar uma lição e nunca será erradicada até que a lição seja aprendida. Seu objetivo é trazer de volta o estado original de harmonia entre a personalidade e a alma. O fato de um indivíduo ainda ter vida, indica que há esperança”.

A dor aparece para nos ajudar a encontrar o sentido, como também se comprova no depoimento da Dra. Claudia, quando cita:

“Todos nós precisamos de pessoas capazes de entender nossa dor e de nos ajudar a transformar nosso sofrimento em algo que faça sentido.” 

“Então, quando falo sobre sentir dor, me refiro ao que a dor nos diz, ao que o sofrimento tem a nos dizer antes de ir embora, ao que ele nos conta a respeito da vida que vivemos”

Será que se pensarmos no sentido das nossas vidas poderemos evitar a chegada da dor ou até mesmo de algumas doenças? Será que se cuidarmos de nossas emoções poderemosevitar o sofrimento físico? Ou será que mesmo quando a dor física ou emocional chegar, poderemos ter um alívio mais rápido, se prestarmos atenção no que a dor tem a nos ensinar?

Segunda a Dra. Claudia, quando há o alívio do sofrimento físico dos pacientes terminais é que começa a surgir o sofrimento emocional:

“…Muitas vezes, diante do alívio do sofrimento físico, o que aparece em seguida é a expressão de outros sofrimentos, como o emocional e o espiritual. A família fica aliviada ao perceber o conforto físico, mas então aparece a necessidade de falar sobre o que falta na vida. Virá o momento de pensar nas famosas “pendências…..” 

“O sofrimento emocional é muito intenso. Nele, o doente toma consciência de sua mortalidade. Essa consciência o leva à busca de sentido de sua existência.”

Eis aqui mais uma grande reflexão: Será que cuidar das nossas emoções e de nossas faltas em vida, nos permitir viver e morrer mais plenamente?

Mas ainda, existe uma outra dimensão de nosso ser de que poucos falamos, que precisa de cuidados e consciência para não adoecer.

“E ainda temos a dimensão espiritual do ser humano que adoece. Em geral, nesse momento de clara consciência da finitude, essa dimensão ganha uma voz que nunca teve antes. Existe aí um risco grande: de que a dimensão espiritual mal estruturada, construída sobre relações de custo e benefício com Deus ou com o Sagrado, caia em ruínas diante da constatação de que nada vai adiar o Grande Encontro, o Fim, a Morte. Muitas vezes, a dor maior é a de sentir-se abandonado por um Deus que não se submeteu às nossas vontades e simplesmente desapareceu das nossas vidas em um momento tão difícil e de tanto sofrimento.” 

E ela descreve ainda…. 

“É impressionante como todos adquirem uma verdadeira “antena” captadora de verdade quando se aproximam da morte e experimentam o sofrimento da finitude. Parecem oráculos. Sabem tudo o que realmente importa nessa vida com uma lucidez incrível. Como recebem acesso direto à própria essência, desenvolvem a capacidade de ver a essência das pessoas à sua volta.” 

Então, se a morte nos aproxima de nossa divindade e de nossa sabedoria, será que é possível cultivar a nossa divindade e sabedoria em vida? Isso nos ajudaria a estar mais conectados com a nossa própria essência e com o que há de melhor e mais sagrado em nós e também nos outros? 

Que tal começar o cultivo agora mesmo? Pode ser libertador…

França, 17 de setembro de 2019.

Carla Merlina Gennari

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *